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Do ouro ao petróleo: a inteligência artificial será a próxima âncora do dólar?

A inteligência artificial poderá dar ao dólar uma nova base de sustentação, semelhante à que o ouro e o petróleo…

A inteligência artificial poderá dar ao dólar uma nova base de sustentação, semelhante à que o ouro e o petróleo ofereceram em diferentes momentos da história? A corrida por data centers, semicondutores, energia e sistemas de pagamento amplia o peso econômico da tecnologia e abre uma discussão plural sobre os próximos vínculos entre a moeda americana e a economia global. O ouro esteve associado à conversibilidade e à escassez, tendo reinado por um século e meio desde a sua consolidação internacional: de 1815 até ao fim definitivo da conversibilidade do dólar no metal após Bretton Woods, em 1971. Justamente a partir daí o petróleo (ou “ouro negro”, como dizia Nixon à época) aproximou o dólar do comércio internacional de energia, dos países produtores e dos mercados financeiros americanos. A inteligência artificial segue outro caminho. Seu avanço depende de uma cadeia que reúne eletricidade, chips, computação em nuvem, software, plataformas e capital. Poderia essa rede criar uma relação de dependência com o dólar comparável, em alguma medida, à construída pelo petróleo? O Julius Baer chama de “technodollar” uma possível etapa em que a influência da moeda americana estaria cada vez mais ligada à infraestrutura digital, ao poder das plataformas e à capacidade de processamento. No Project Syndicate, Chenxu Fu e Xianguo Huang avaliam que empresas de IA, provedores de nuvem e redes de pagamento podem estar “escrevendo o próximo capítulo da história monetária internacional”. A pergunta é quem terá condições de controlar os principais elos dessa cadeia — e em que moeda serão realizados seus contratos, investimentos e pagamentos. O debate já alcançou os bancos centrais. O tradicional simpósio de Jackson Hole dedicou a sua programação recentemente à inovação financeira, aos pagamentos e às implicações para a política monetária. A escolha do tema ocorreu em meio à expansão das stablecoins, da tokenização de ativos e de novas formas de intermediação digital. Embora não tenha apresentado a inteligência artificial como uma nova âncora monetária, o encontro ajudou a situar a discussão em um ambiente no qual tecnologia e funcionamento do sistema financeiro estão cada vez mais próximos. Os Estados Unidos ocupam posições relevantes em vários segmentos da economia de IA. Suas empresas lideram em modelos, plataformas e serviços de nuvem, enquanto a Ásia tem papel decisivo na fabricação de semicondutores e na infraestrutura tecnológica. Essa divisão levanta outra questão: uma eventual vantagem monetária americana viria do domínio direto das tecnologias ou da capacidade de reunir, sob sua influência financeira, uma cadeia produtiva global? A disputa já chegou à relação com o consumidor. O agente de inteligência artificial Muse, da Meta, lançado no início deste mês, alcançou rapidamente o topo da App Store americana, mas foi bloqueado pela Amazon em sua plataforma de compras. O episódio expõe a competição por dados, publicidade e controle das transações. Se agentes digitais passarem a pesquisar produtos, fazer compras e executar tarefas, as plataformas tradicionais continuarão controlando a relação com o cliente? A reação volátil das Bolsas americanas a este episódio Muse/Amazon mostrou que os efeitos dessa disputa podem atingir setores inteiros. Enquanto as ações de empresas ligadas à IA subiram, levando o índice Nasdaq a um novo recorde histórico, no S&P 500 os papéis de gestoras de patrimônio, corretoras e bancos recuaram. O movimento acrescenta uma dimensão financeira à corrida tecnológica: como a IA poderá alterar a distribuição de serviços, o atendimento e a intermediação entre instituições e consumidores? As stablecoins em dólar formam outra conexão possível. Ao manter reservas em ativos americanos, especialmente títulos do Tesouro, esses instrumentos aproximam pagamentos digitais e mercados financeiros dos Estados Unidos. A expansão de agentes capazes de executar transações poderia ampliar essa ligação. O efeito, entretanto, dependeria da regulação, da segurança dos sistemas e da confiança de usuários e empresas. Argumenta-se que a comparação com o petrodólar exige cautela. O petróleo era uma commodity essencial para a economia mundial, com forte presença no comércio e nas receitas dos países exportadores. Já a IA se apoia em uma rede de tecnologias e serviços distribuída entre diferentes países. Não existe um acordo monetário que a estabeleça como referência formal, nem uma relação direta entre o uso de inteligência artificial e a valorização do dólar. O próprio Julius Baer observa que a relação entre petróleo e dólar mudou com transformações como o avanço do óleo de xisto nos Estados Unidos. A influência da moeda, portanto, não se explica por uma única mercadoria. Seus fundamentos também estão nos mercados financeiros, nas instituições, na confiança nos ativos americanos e na posição geopolítica do país. A IA poderá reforçar esses fundamentos ao ampliar a demanda por computação, plataformas, pagamentos e ativos denominados em dólar? Ou a natureza global da cadeia tecnológica, somada à concorrência entre empresas e países, limitará esse efeito? São muitas indagações. A tecnologia pode se tornar uma nova fonte de poder econômico americano sem necessariamente cumprir o papel que o ouro e o petróleo desempenharam na história monetária, dizem analistas de diferentes correntes de pensamento. Por enquanto, o “technodollar” permanece como uma hipótese sobre a relação entre tecnologia e moeda. Os debates em Jackson Hole mostraram que a inovação financeira já ocupa espaço entre os temas tratados por bancos centrais, acadêmicos e economistas de diferentes matizes. A questão mais ampla é se a IA ficará restrita a uma transformação dos negócios e da produtividade ou se também poderá mudar a maneira como o dólar se conecta à economia mundial.

Perguntas frequentes

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Sobre o que trata “Do ouro ao petróleo: a inteligência artificial será a próxima…”?
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Giulia Martins

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