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Condições financeiras tendem a acentuar desaceleração
iStock/Getty Images As condições financeiras se tornaram menos favoráveis ao crescimento, podem piorar mais e contribuir para uma desaceleração maior…

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As condições financeiras se tornaram menos favoráveis ao crescimento, podem piorar mais e contribuir para uma desaceleração maior da economia brasileira nos próximos meses. O preço do petróleo e os juros externos estão tendo peso preponderante na piora, coadjuvados pelo dólar em valorização e também pelos juros domésticos, que, mesmo em queda, estão muito elevados.
Desde o início da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o índice de condições financeiras, uma combinação de indicadores de variação de preços de ativos financeiros e físicos, juros e riscos, tornou-se desfavorável às atividades econômicas. Uma nova onda restritiva está em desenvolvimento agora, com o aumento dos juros dos títulos de longo prazo do Tesouro americano.
O título do Tesouro de 10 anos, um benchmark para investidores globais, paga os maiores rendimentos em quase 20 anos, de 5,28% ontem, com alta de um ponto percentual desde o início do ano. Os Treasuries de 30 anos exibem os maiores yields desde 2004, a 5,61%. Acrescidos de prêmios de risco, que levam em conta os fundamentos econômicos dos países, o papel de 10 anos é o piso das taxas internacionais para emissão de dívidas e, indiretamente, para taxas de juros domésticas.
O recrudescimento das hostilidades no Estreito de Ormuz e mais um fracasso nas negociações entre os EUA e o Irã levaram as cotações do petróleo a permanecerem acima de US$ 100 o barril durante praticamente todo o mês de setembro. Variável fundamental para a determinação de preços na economia, logo da inflação, a cotação do petróleo vem empurrando para cima os rendimentos da renda fixa. Há uma correlação entre ambos, e a consultoria TS Lobard estima que cada dólar de alta no barril do petróleo WTI acrescenta 0,02 ponto no juro dos Treasuries de 10 anos (FT, ontem).
Os preços do petróleo estão sem um horizonte previsível. Com a guerra entrando em seu oitavo mês, quando se esperava que não durasse mais de três, é impossível estimar com algum grau de certeza até onde as cotações poderão chegar. A alta ocorre em uma conjuntura em que a inflação já se mostrava resistente na maior parte dos países desenvolvidos, que, ao mesmo tempo, colecionam endividamentos grandes e crescentes. O déficit público americano, por exemplo, avançará mais de 6% do PIB no atual exercício fiscal, e sua dívida ultrapassou US$ 40 trilhões. Por isso, o Federal Reserve, o banco central americano, voltou a elevar os juros básicos, em um movimento que os investidores estimam que será seguido por mais duas ou três altas. Com isso, toda a curva de juros dos Treasuries acompanha o aumento de curto prazo.
O índice de condições financeiras do Banco Central do Brasil mostrou-se menos restritivo em meados do mês, apontou o Relatório de Política Monetária. Os fatores que trazem restrições foram, por ordem de grandeza, os juros externos, os juros domésticos e o petróleo. Eles foram contrabalançados até certo ponto, porém, pelo aumento dos preços das commodities agrícolas, que beneficiam o país, que é grande exportador delas e de petróleo, e pela desvalorização do dólar até então.
Isso, porém, tende a mudar. Com o crescimento robusto da economia americana e o aumento dos juros pelo Fed, as expectativas sobre o comportamento do dólar mudaram e apontam valorização agora. No mês, ele ganhou 1,5% em relação às moedas dos países com os quais os EUA mais comerciam. No Brasil, o dólar chegou na segunda-feira a R$ 5,22, seu maior valor desde março. A depreciação do real, caso persista, traz uma complicação a mais para a redução da inflação, quando o BC já espera uma piora nos dois próximos trimestres, em parte pelos efeitos de um El Niño vigoroso. A desaceleração significativa das atividades econômicas — há várias estimativas de avanço do PIB de 1% em 2027 — deve ajudar na redução do IPCA, assim como algum freio nos gastos públicos que o próximo governo, não importa quem vencer as eleições, será obrigado a realizar.
Um dos problemas de endividamento elevado como o do Brasil é que isso o torna mais vulnerável a turbulências externas, que podem vir de uma hora para outra. O aumento dos juros externos está sendo provocado também pela alta emissão de dívida das big techs em inteligência artificial (IA), e o aumento do custo do capital pode frear o ímpeto de investimento na tecnologia, em um momento em que os investidores estão desconfiados se os retornos esperados das empresas envolvidas na corrida tecnológica serão obtidos.
Novas altas de juros podem causar uma revisão dos preços dos ativos com efeitos amplos e perturbadores. Como nota a estrategista para a Europa da JP Morgan Asset, Karen Ward, as companhias ligadas à IA representam 50% da capitalização da S&P 500 e também do benchmark para investimentos em países emergentes. A perda de fôlego de investimento das big techs pode inverter a alta persistente, com recordes de valorização, das bolsas americanas. Uma mudança dessa magnitude dificilmente ocorrerá sem turbulências globais.
Fonte: Valor Econômico
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