ECONOMIA

Por que os EUA produzem 74% mais etanol que o Brasil, mas ainda abastecem principalmente com E10?

Os Estados Unidos produzem cerca de 62,5 bilhões de litros de etanol, contra 35,9 bilhões de litros do Brasil —…

Os Estados Unidos produzem cerca de 62,5 bilhões de litros de etanol, contra 35,9 bilhões de litros do Brasil — aproximadamente 74% a mais. Apesar disso, a gasolina vendida no mercado americano contém predominantemente 10% do biocombustível, bem abaixo dos 32% adotados na gasolina comum brasileira.

O que explica essa diferença?

A resposta começa pelo tamanho do mercado a ser abastecido. Segundo Marcelo Di Bonifácio, analista da StoneX, o consumo americano de gasolina é tão superior ao brasileiro que uma mistura proporcionalmente menor consegue absorver um volume elevado de etanol.

“A gente precisa pensar no primeiro lugar que eles têm um consumo de gasolina muito maior que o nosso”, afirma.

O analista associa essa demanda ao tamanho da frota, à dependência do automóvel nos deslocamentos cotidianos e ao maior poder aquisitivo para abastecer.

Em sua avaliação, a organização de muitas cidades americanas, com poucas alternativas de transporte público, também contribui para esse padrão de consumo.

Assim, comparar apenas os percentuais de mistura pode esconder a dimensão dos dois mercados: 10% de um volume muito maior de gasolina podem representar mais litros de etanol do que uma participação elevada em um mercado menor.

As exportações também ajudam a escoar a produção americana. Di Bonifácio, porém, considera esse fator secundário para explicar a aparente contradição entre produzir tanto etanol e utilizar uma mistura mais baixa. Os EUA exportaram o equivalente a cerca de 13,2% da produção de etanol em 2025.

E10 predomina, mas não é a única opção

Outra diferença está na maneira como o biocombustível chega às bombas. Enquanto o Brasil estabelece um percentual obrigatório para a gasolina comum, o mercado americano reúne combustíveis com diferentes teores de etanol.

O E10 predomina, mas convive com o E15, com misturas mais elevadas destinadas a veículos compatíveis e com gasolina sem etanol. Isso significa que os EUA não adotam o E15 de maneira generalizada: a disponibilidade depende da região e dos postos, e a escolha do consumidor está limitada às opções oferecidas em cada estabelecimento.

Segundo o analista da StoneX, o E15 aparece com mais frequência no Meio-Oeste, região que concentra a produção americana de etanol. Em localidades mais afastadas, sua presença tende a ser menor.

Essa diversidade não significa ausência de uma política de biocombustíveis. Os EUA contam com o Renewable Fuel Standard (RFS), programa que estabelece exigências de volumes de combustíveis renováveis. Seu funcionamento, contudo, é diferente de determinar que toda a gasolina comum tenha o mesmo percentual de etanol.

No Brasil, a mistura de 32% na gasolina comum foi estabelecida em caráter temporário, com vigência inicial de 180 dias a partir de agosto de 2026 e possibilidade de prorrogação por igual período.

A comparação também precisa considerar o etanol hidratado, vendido diretamente nas bombas para abastecer veículos flex brasileiros. Durante a 9ª Conferência NovaCana, Alexandre Zebulun, diretor comercial da Evolua Etanol, apresentou uma projeção de que esses modelos ainda representarão 73% da frota brasileira em 2030. A escolha do motorista entre gasolina e etanol continuará, portanto, sendo decisiva para a demanda.

Por que o E15 não avança mais rapidamente?

Para Di Bonifácio, uma das dificuldades para ampliar a presença do E15 está na previsibilidade de sua comercialização. As restrições sazonais à venda durante o verão americano e a necessidade de adaptar os estabelecimentos interferem na decisão dos donos de postos.

O raciocínio é comercial: se o empresário enfrenta limitações para oferecer o combustível durante parte do ano, pode considerar mais conveniente continuar vendendo apenas E10. A possibilidade de comercialização contínua torna o investimento mais atraente.

“Você traz uma segurança de disponibilidade maior”, afirma.

Na avaliação do analista, reduzir essa incerteza pode estimular mais postos a oferecer E15 e, consequentemente, ampliar o espaço do etanol no mercado americano.

A dificuldade também passa pelos interesses envolvidos na mudança. No painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, da conferência, Zebulun apresentou uma avaliação cética sobre uma expansão mais ampla da mistura nos Estados Unidos.

O executivo apontou a resistência da indústria petrolífera, questionamentos de fabricantes de automóveis sobre a responsabilidade por eventuais problemas atribuídos ao combustível e a complexidade regulatória entre os estados americanos.

Na avaliação dele, o potencial de aumento do consumo é expressivo, mas sua concretização enfrenta obstáculos políticos e comerciais. Permitir a venda do E15 durante todo o ano, portanto, não significa que todos os postos passarão a oferecê-lo ou que os consumidores migrarão automaticamente para essa alternativa.

Mais mercado para o Brasil, mas também milho mais caro?

Uma expansão do consumo americano poderia abrir espaço para exportações brasileiras. O movimento, porém, também traria possíveis efeitos sobre os custos das usinas.

Filipi Cardoso, especialista de agro do Bradesco — Pesquisa Econômica, ponderou no painel que uma necessidade maior de produzir etanol nos EUA ampliaria a demanda por milho, com possíveis reflexos nas cotações internacionais e nos custos das usinas brasileiras que utilizam o cereal.

O cenário combinaria, assim, uma oportunidade comercial para o biocombustível brasileiro com o risco de encarecimento de sua matéria-prima. O benefício para cada produtor dependeria também da evolução dos custos e de sua competitividade.

A disputa pelos compradores internacionais, entretanto, já encontra um concorrente forte. Em sua apresentação na conferência, Zebulun avaliou que o etanol americano tem conquistado mercados pela competitividade, enquanto o Brasil perdeu espaço nos embarques.

Segundo o executivo, importadores como Holanda, Coreia do Sul, Índia e Reino Unido têm recorrido predominantemente ao produto dos Estados Unidos. Nesse contexto, a projeção apresentada pela Evolua é de manutenção das exportações brasileiras entre 1,5 bilhão e 2 bilhões de litros anuais no curto prazo.

O Brasil preserva oportunidades em segmentos que valorizam características específicas do etanol de cana, como determinadas aplicações industriais e seus atributos de descarbonização. Na avaliação de Zebulun, porém, esses mercados ainda têm escala limitada para absorver o crescimento da oferta brasileira.

O diferencial ambiental pode abrir portas

O acesso ao próprio mercado americano também não depende apenas de uma eventual necessidade de importar mais combustível. Zebulun lembrou que políticas de descarbonização já favoreceram as vendas de etanol de cana brasileiro aos Estados Unidos por seus atributos ambientais.

Segundo ele, isso ajuda a explicar períodos em que o Brasil exportava etanol de cana para o mercado americano e, simultaneamente, importava o produto dos EUA para regiões onde a operação fazia sentido econômico.

O reconhecimento e a remuneração dessas características ambientais poderiam, portanto, abrir oportunidades mesmo sem uma expansão generalizada do E15. Para o setor brasileiro, a disputa envolve tanto o volume de etanol que os americanos consomem quanto o valor que suas políticas atribuem a diferentes formas de produzi-lo.

Fonte: Money Times

Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

Sobre o que trata “Por que os EUA produzem 74% mais etanol que o…”?
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