AGRONEGÓCIO

Casas Bahia e o campo: quando a dívida vence a capacidade de produzir

Foto: Divulgação/ Casas Bahia A recuperação judicial da Casas Bahia, com aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, parece distante da…

Foto: Divulgação/ Casas Bahia

A recuperação judicial da Casas Bahia, com aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, parece distante da realidade do produtor rural. Mas as razões da crise apresentam semelhanças importantes.

A varejista foi atingida pela combinação entre endividamento elevado, juros altos, consumo enfraquecido e dificuldade para obter recursos. No campo, produtores enfrentam queda nos preços, custos elevados, perdas climáticas e crédito cada vez mais caro e seletivo.

Uma empresa pode vender bilhões e não gerar caixa suficiente para pagar juros, fornecedores e dívidas. Da mesma maneira, uma propriedade pode colher muito e continuar financeiramente pressionada.

O produtor assume antecipadamente os custos da safra e somente recebe meses depois. Nesse período, fica exposto ao clima, ao câmbio e aos preços internacionais. Quando a safra quebra ou a cotação cai, a receita diminui, mas a dívida permanece, acrescida de juros elevados.

Por isso, a recuperação judicial nem sempre representa uma atividade improdutiva. Muitas vezes, revela um negócio viável que perdeu a capacidade de cumprir seus compromissos no prazo.

O campo já acendeu o sinal vermelho

O agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre os produtores organizados como pessoa jurídica, a alta chegou a 73,5%. A soja concentrou 137 solicitações, segundo a Serasa Experian.

Existem casos de expansão sem planejamento e alavancagem excessiva. Mas seria injusto atribuir toda a crise à má gestão. Muitos produtores foram atingidos por sucessivas perdas climáticas, margens menores e ausência de uma política consistente de seguro rural.

Quando a renda cai, os bancos restringem o crédito. Sem crédito, o produtor recorre a recursos mais caros. Com juros elevados, a dívida cresce mais rapidamente do que sua capacidade de pagamento. É o círculo vicioso que já empurrou empresas e produtores aos tribunais.

O problema começa na política econômica

Os juros não permanecem altos por acaso. Eles refletem, entre outros fatores, a desconfiança provocada pelo desequilíbrio das contas públicas e pelo crescimento da dívida governamental.

O mais preocupante é que, até agora, nenhum dos principais candidatos apresentou um projeto fiscal estrutural capaz de controlar as despesas, reduzir o risco do país e permitir uma queda sustentável dos juros. O Congresso também não demonstra disposição para enfrentar essa discussão com a profundidade necessária.

Renegociar dívidas é necessário, mas não resolve a causa do problema. Sem equilíbrio fiscal, o país continuará convivendo com crédito caro, investimentos menores e empresas financeiramente sufocadas.

Um alerta aos candidatos

O caso da Casas Bahia precisa servir como advertência. Se uma das maiores varejistas do país chegou a esse ponto, outras empresas poderão seguir o mesmo caminho. No agronegócio, esse movimento já avança rapidamente.

A recuperação judicial deve ser o último recurso. Ela reorganiza os compromissos, mas não cria renda, não recupera uma safra perdida e não garante dinheiro para o próximo plantio.

Os candidatos precisam compreender que responsabilidade fiscal não é uma discussão restrita ao mercado financeiro. Ela chega à loja, à indústria e à propriedade rural.

No varejo ou no campo, a crise começa quando os juros fazem a dívida crescer mais rapidamente do que a renda. E, sem um projeto fiscal sério, o Brasil continuará produzindo recuperações judiciais em vez de crescimento.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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Lucas Vieira

Lucas Vieira

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